TRANSA UM TRANSA?

Sem choro nem vela. Podem falar que o Caetano Veloso é isso, que é aquilo, mas que o cara tem diversos trabalhos geniais no seu currículo é indiscutível. E um deles – talvez o mais – ganhou recentemente uma reedição luxuosa. Para comemorar seus 40 anos – e também como parte das comemorações de 70 anos do próprio Caê, que se completarão em agosto de 2012 – o disco Transa acabou de ser relançado em grande estilo.

O álbum foi gravado em 1971, em Londres, no período de exílio de Caetano. Para registrar o trabalho, ele chamou alguns comparsas e montou uma banda enxuta, com Jards Macalé na guitarra e no violão; Moacyr Albuquerque no baixo; e Áureo de Souza na percussão e bateria – Tutti Moreno tocou bateria apenas na faixa “Nine Out Of Ten”.

A partir da recuperação dessas fitas masters originais, o disco foi remasterizado no estúdio Abbey Road (que dispensa apresentações) e chega novamente às lojas agora em 2012 em vinil e CD. Pra completar o barato total, as edições trazem o projeto gráfico original, o tal “disco-objeto”, concebido pelo amigo e diretor de cinema/teatro Álvaro Guimarães. O design permite que uma capa tripla seja aberta e “montada”. Obviamente foi adaptado para o formato CD, mas em vinil é o mesmo do LP original de 1972.

A nova edição de Transa permite apreciar maravilhas do repertório “caetânico” em toda sua glória. Trabalho híbrido português/inglês, apresentou um artista perfeitamente ligado ao que de mais moderno se fazia em termos de música na época. Ao samba, Caetano incorporou blues, rock e, pioneiro, reggae – na faixa “Nine Out Of Ten”, que usa elementos do estilo jamaicano pela primeira vez por um artista brasileiro.

Transa abre com o que eu considero uma das melhores canções dele, “You Don’t Know Me”. Sobre um instrumental bluesy, Caetano canta em inglês o que parece ser um recado aos brucutus da Ditadura (“You don’t know me/Bet you’ll never get to know me/You don’t know me at all/Feel so lonely”), cita o clássico “Reza”, de Edu Lobo, coloca Gal Costa para cantar – em participação incidental – “Saudosismo” e homenageia o Gonzagão. Tudo isso numa única faixa.

Ao caos organizado de “Triste Bahia” – um poema do barroco Gregório de Mattos transformado em batuque de terreiro – segue-se outra obra-prima do álbum, “It’s a Long Way”. Sobre uma batida de bossa nova, Caetano cita explicitamente os Beatles – tanto verbalmente quanto nas aliterações da letra – e insere trechos de “Consolação”, do Baden Powell. De novo, tudo isso numa única faixa.

Na sequência, aparece outro momento brilhante do disco, a releitura do samba “Mora na Filosofia”, do gênio Monsueto Menezes. Seguindo a temática central da letra – traição, desilusão e dor – a canção começa lenta e triste. Quando entra a bateria de Áureo de Souza, ela envereda pelo terreno jazzístico até chegar à catarse do seu terço final, como se o personagem-narrador entrasse em êxtase por ter perdido (se livrado de?) uma mulher infiel.

Gal ainda volta nas duas faixas finais do disco, a experimental “Neolithic Man” e o rock “Nostalgia”. Nesta última, ela imita uma gaita com a boca – no final da música aparece uma gaita real, tocada, olha só, pela Ângela Ro-Ro. Não à toa, Transa é o disco mais cultuado de Caetano. Trabalho essencial que redime o filho da Dona Canô de qualquer possível chatice que ele grave-digue-faça nos últimos anos.

por Alex Menotti, jornalista e blogueiro do Rama Lama Fa Fa Fa e da Play TV

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