TRÈS CHIC – PARTE 2
Demorou, mas cumpri a promessa. Aí vai a segunda parte das “músicas-bacanas-e-suas-versões-em-francês”. No próximo post, tem a terceira e última leva. Com as três, já dá para gravar um CD supimpa e ser o centro das atenções nas festinhas descoladas. Amusez-vous.
1) Baby Love – Annie Philippe: Clássico das Supremes de 1964, foi vertido para o francês (mantendo o título original) e lançado no mesmo ano no segundo EP da Annie Philippe. Após largar a escola, Philippe se tornou DJ num clube da Champs Élysées. Lá ela conheceu e impressionou o suficiente o famoso arranjador e líder de orquestra Paul Mauriat, que ajudou a garota a dar início na carreira musical. Pelas semelhanças no estilo de voz “infantil”, foi bastante comparada a France Gall. Um de seus maiores sucessos foi “C’est la Mode”. Amargou uma fase bem em baixa a partir dos anos 70 e só voltou a fazer alguns shows já nos anos 2000.
2) Le Jeu Du Téléphone – Natacha Snitkine: “Music To Watch Girls By” foi originalmente composta para ser um jingle da Diet Pepsi (?!?!). O compositor, produtor e multitarefas Bob Crewe – que escreveu inúmeros sucessos, entre eles a clássica “Can’t Take My Eyes Off You” – fez um arranjo instrumental para ela e a lançou como single em 1967, com o seu Bob Crewe Generation. Uma versão “com letra”, lançada pelo cantor Andy Williams no mesmo ano, também estourou nas paradas. Ainda em 1967, ganhou versão em francês e foi registrada no primeiro EP da cantora Natacha Snitkine.
3) La Fermeture Éclair – Delphine. Talvez a original mais obscura desta lista. Lançada em 1966 com o nome “In The Past” pela banda de garagem da Flórida We The People, ganhou uma cover dois anos depois feita pelo grupo The Chocolate Watchband – outro ícone da psicodelia e das garagens sessentistas. Esta versão da cantora Delphine traz o próprio We The People como banda de apoio.
4) Mal – Johnny Hallyday: Canção que muita gente associa ao Deep Purple e acha até mesmo que é original deles. Na verdade, a música foi composta por um cara chamado Joe South e lançada em 1967 pelo cantor Billy Joe Royal. O Purple gravou no seu primeiro disco Shades Of Deep Purple, de 1968, ainda com o Rod Evans nos vocais, antes da entrada do Ian Gillan. No mesmo ano, o cantor, ator e ícone francês Johnny Hallyday lançou a sua “afrancesada” versão para “Hush”.
5) Vieille Fille – Eddy Mitchell: “Spinning Wheel” é um dos maiores sucessos do grupo de jazz-rock Blood, Sweat & Tears. Tá no segundo e epônimo disco deles, lançado em 1968. O álbum recebeu o Grammy de Disco do Ano, batendo o Abbey Road, dos Beatles. Eddy Mitchell – cujo nome de batismo é Claude Moine -, cantor e ator francês que gravou muito nos Estados Unidos e em Londres (o Jimmy Page chegou a trabalhar como músico de estúdio para ele antes do Led Zeppelin), fez essa versão, que deu nome ao seu álbum lançado em 1969.
por Alex Menotti, jornalista e blogueiro do Rama Lama Fa Fa Fa e da Play TV
TRÈS CHIC – PARTE 1
Em francês tudo fica mais chique (ou très chic), vide o nome deste blog. Experimente convidar alguém para jantar sugerindo crème de pois avec Saint Pierre. Depois tente dizendo “sopa de ervilha com tilápia”. Percebe? Por conta disso, num serviço incrível de utilidade pública, separei algumas versões em francês de músicas bacanas. Ideal para você impressionar quando estiver em uma rodinha de amigos e alguém disser, por exemplo, que adora “Paint It Black”, dos Stones. Basta você rebater com “já ouviu a versão em francês?” e voilà. É infalível. Dividi em três posts, pra não ficar um negócio gigantesco, já que são muitas músicas. O primeiro vai hoje:
1) “D’être À Vous” – Marie Laforêt: Versão de “I Want You”, do Bob Dylan, que está numa das obras-primas dele, o disco Blonde On Blonde, de 1966. A Marie Laforêt começou a carreira como atriz, no final dos anos 50. Em 1963, ela entrou para a música e seu primeiro sucesso foi “Les Vendanges de l’Amour”. Até 1970, lançou sete álbuns, mas depois perdeu o interesse na carreira de musicista e, em 1978, se mudou para a Suíça e abriu uma galeria de arte. “D’être À Vous” foi lançada como single em 1969.
2) Heureux Tous Les Deux – Frank Alamo: O maior (talvez único) sucesso dos Turtles, “Happy Together”, foi lançado em 1967 e chegou a desbancar a “Penny Lane”, dos Beatles, da primeira posição na parada da Billboard por três semanas. Desde então, ganhou incontáveis regravações, algumas em outras línguas, entre elas uma em espanhol, feita pelo Roberto Jordan (“Juntos y Felices”), uma em português, da banda sessentista brasileira Os Canibais (“Felizes Juntinhos”) e esta, do cantor pop francês Frank Alamo, lançada também em 1967.
3) Ces Bottes Sont Faites Pour Marcher – Eileen: Nascida nos Estados Unidos, Eileen Goldsen foi morar na França em 1963. Lá, começou a traduzir sucessos do inglês para o francês e decidiu que iria cantar também. Com o sucesso de “These Boots Are Made For Walkin’”, na voz da Nancy Sinatra, Eillen foi escolhida para gravar versões em alemão, italiano e francês. Com a insistência dela de continuar regravando sucessos da filha do Sinatra, a carreira da Eileen foi pro vinagre no final dos anos 60.
4) Fille Ou Garçon – Stone: A cantora francesa Annie Gautrat ganhou o apelido de “Petite Stone” por causa de seu corte de cabelo, que parecia com o do Brian Jones, dos Rolling Stones. Quando ela recebeu sua primeira oferta para um contrato com uma gravadora, adotou o nome artístico de Stone. Em seu primeiro EP, gravou uma versão para “You Won’t See Me”, dos Beatles, intitulada “Le Jour La Nuit. No EP seguinte, foi a vez de visitar o repertório dos Beach Boys e ela transformou a clássica “Sloop John B” nesta “Fille Ou Garçom”.
5) Le Grand Amour – Nicoletta: Versão de “Son Of A Preacher Man”, da Dusty Springfield (que muita gente conhece da trilha sonora do Pulp Fiction). Foi lançada como lado B do single de “Quand On A Que L’amour”, em 1969. A Nicoletta é uma das grandes vozes francesas de todos os tempos e era até mesmo considerada pelo Ray Charles sua “irmã de alma”.
Por enquanto é só, pessoal. Daqui duas semanas tem a parte 2.
por Alex Menotti, jornalista e blogueiro do Rama Lama Fa Fa Fa e da Play TV
O ESTRANHO MUNDO DE WAYNE
Saiu no Brasil o disco que o Flaming Lips gravou em colaboração com gente tão díspare quanto Nick Cave e Ke$ha, The Flaming Lips And Heady Fwends. E o que poderia virar uma colcha-de-retalhos maluca acaba funcionando. Apesar de as faixas terem sido gravadas em momentos diferentes – muitas delas já lançadas em EPs e tal – quando ouvidas na sequência, formam uma unidade. Musicalmente, os Lips reforçam suas influências “krautrockianas” apresentadas no disco Embryonic, de 2009, e vão além. Há desde o experimentalismo radical de “Supermoon Made Me Want To Pee” (com o Prefuse 73) até a doçura pop de “Children Of The Moon” (com a banda australiana de rock psicodélico Tame Impala).
As colaborações “bizarras” também dão certo. A improvável participação da Ke$ha na faixa de abertura, “2012″ (algo como um Stooges cyberpunk), é um dos melhores momentos do disco. E o fato de juntar o Chris Martin (Coldplay) com os Lips, na canção “I Don’t Want You To Die”, o que para mim poderia parecer com misturar energético e uísque (melhora um e estraga o outro) acaba rolando tranquilamente.
O Flaming Lips “normal” (no que é possível ser “normal) surge em faixas como “I’m Working At NASA On Acid” (parceria com a banda “noise” Lightning Bolt) e na bonita-pero-estranha “Ashes In The Air”, ao lado do Bon Iver. Outro grande momento é a participação do Jim James, vocalista do My Morning Jacket, na psicodelicamente torta “That Ain’t My Trip”. Ela, por sinal, prepara o terreno para a entrada em cena do mestre Nick Cave na demencial “You Man? Human???”. Outros momentos inusitados ficam por conta do dueto com a Erykah Badu, desconstruindo o clássico da Roberta Flack, “The First Time I Ever Saw Your Face”, e da Yoko Ono fazendo… bem, fazendo o que a Yoko Ono faz em “Do It”.
Como a banda – e, sobretudo, o vocalista Wayne Coyne – adora uma esquisitice, foi lançada lá fora também uma edição limitada em vinil, de apenas dez cópias, com uma gota de sangue de cada artista que participou do álbum, ao custo de US$ 2.500. Aproveitando o gancho, separei algumas outras bizarrices já feitas por eles:
- O grupo gravou, em 2011, a faixa “I Found a Star on the Ground”. Até aí, tudo bem. Só que ela tem seis horas. Vou repetir pra deixar claro: SEIS HORAS. Dá pra ir de São Paulo ao Rio ouvindo uma música só;
- Em 1997, eles lançaram Zaireeka, uma caixa com quatro CDs que devem ser tocados ao mesmo tempo em quatro aparelhos de som diferentes;
- No mesmo ano, a banda promoveu dois eventos que ela chamou de a) “parking lot experimentjjjs”; b) “boombox experiments”. No primeiro, num estacionamento, foram distribuídos a 40 voluntários K-7s que deveriam ser tocados simultaneamente nos toca-fitas do carro de cada um. No segundo, uma “orquestra”, também de 40 pessoas, cada uma com um boombox, foi “conduzida” pelo Wayne Coyne. Em tempo: boombox é aquele rádio-de-pilha tamanho gigante, que a turma do hip-hop usava apoiado no ombro, nos anos 70/80;
- Em 1999, fizeram uma série de shows chamados “The Headphone Concert”. O público recebia um walkman com fones de ouvido e o show era transmitido simultaneamente por uma freqüência baixa de FM. A pessoa ouvia o som vindo do palco e, ao mesmo tempo, pelos fones de ouvido. Tudo para “melhorar a percepção do espetáculo”;
- Em 2011, os Lips lançaram a música “Two Blobs Fucking”. Só que ela está dividida em 12 partes, disponíveis no YouTube, que devem ser tocadas ao mesmo tempo;
- Ainda em 2011, a banda lançou uma série de EPs que, na verdade, se tratam de Pen Drives envolvidos numa espécie de gelatina em formatos fofos como o de um crânio, de um cérebro e de um feto.
por Alex Menotti, jornalista e blogueiro do Rama Lama Fa Fa Fa e da Play TV
EUA: AME-O OU DEIXE-O
Foi lançado há pouco no Brasil, em DVD, o documentário Os EUA X John Lennon, de David Leaf e John Scheinfeld. Pra quem não assistiu quando foi exibido nos cinemas por aqui, é uma boa oportunidade de conhecer com mais detalhes um caso marcante (e hoje em dia pouco conhecido) da vida de Lennon: a “briga” dele com o governo do então presidente estadunidense Richard Nixon. Serve também para aqueles que acusam o ex-Beatle de ser apenas um pacifista mala e ingênuo perceberem que o buraco era bem mais embaixo.
Tudo bem que é uma obra um tanto quanto chapa-branca (Yoko Ono participou ativamente da produção do documentário), mas é bastante feliz em lançar luz sobre os fatos e esmiuçar o contexto que levou Lennon a se tornar persona non grata perante o governo dos EUA nos anos 70.
A saber. A administração Nixon mandava e desmandava, a opinião pública já não aguentava mais o país imerso no atoleiro de uma guerra cretina, a repressão policial comia solta e a luta pelos direitos civis se intensificava. Diante desse cenário, artistas, intelectuais e ativistas radicais partiram pro ataque. Lennon, que já morava nos Estados Unidos há algum tempo, abraçou a causa.
Ele se aliou a figuras carimbadas da contracultura da época, como Abbie Hoffman e Bobby Seale, um dos fundadores do grupo extremista Panteras Negras. Rapidamente, se tornou a voz principal da contestação. Isso incomodou sobremaneira Nixon e o diretor do FBI, o famigerado e paranóico J. Edgar Hoover. Lennon passou a ser espionado e até mesmo um enorme dossiê sobre ele foi elaborado pelos “capangas” de Hoover. Percebendo que seria impossível calar John, o governo decidiu simplesmente deportá-lo.
É essa luta do cantor contra Nixon o fio condutor do documentário. Ele também reflete a situação política e cultural da época, com imagens de arquivo, tanto de acontecimentos importantes de então quanto de Lennon (dessas últimas, muitas raras, liberadas por Yoko especialmente para o documentário), e depoimentos preciosos de personagens da época, como a ativista Angela Davis, o jornalista Walter Cronkite e o político George McGovern.
Documentário dos mais interessantes, importantíssimo para entender um pouco mais da História recente e mostrar que, sim, gente como Lennon faz uma falta danada hoje em dia.
por Alex Menotti, jornalista e blogueiro do Rama Lama Fa Fa Fa e da Play TV
AMÉRICA
Estreou no festival de Cannes deste ano, em maio, a versão restaurada e estendida do longa Era Uma Vez na América (Once Upon a Time in America, Sergio Leone, 1984). Ela tem 4h15, quase 20 minutos a mais do que a que saiu em DVD. A pergunta é: quando algum iluminado vai trazer essa versão para os cinemas daqui? Para se ter uma ideia, o Robert De Niro, que estava presente na exibição em Cannes, foi às lágrimas. O Robert De Niro.
Sou maluco por “filmes de máfia” e esse é uma obra-prima. Canto-de-cisne de Leone – o diretor morreria quatro anos depois -, conta a saga de amigos mafiosos (liderados por Noodles e Max, personagens de Robert de Niro e James Woods, respectivamente) durante décadas – do começo do século 20 até meados dos anos 1960 – e vai além de ser apenas uma história sobre criminosos. É uma estonteante parábola sobre amor, amizade e traição. É também uma metáfora sobre a transformação dos Estados Unidos em potência mundial, com todas suas contradições.
Não vou escrever aqui a sinopse toda, nem falar muito da história pra não estragar o prazer de quem for ver pela primeira vez, mas existem ao menos três sequências que mostram toda a genialidade de Leone. Numa, o diretor consegue criar uma tensão absurda a partir de uma situação comezinha: um dos personagens mexendo açúcar numa xícara de café com uma colher. Em outra, Leone transforma um momento aparentemente banal – um garoto e um doce de creme – em pura poesia. Na terceira, uma violenta cena de estupro revela um personagem ao mesmo tempo brutal e patético. O final também deixa o espectador cheio de dúvidas e a “teoria do ópio” rende discussões até hoje.
Além de Woods e de Niro, o elenco é afiadíssimo, sobretudo a parte feminina, com destaque para a jovenzinha e estreante Jennifer Connelly, no papel de Deborah quando criança; Elizabeth McGovern (praticamente uma sósia da Ana Paula Arósio), com o mesmo personagem quando adulto; e Tuesday Weld, como a ninfomaníaca e interesseira esposa de Max. A trilha sonora é um caso à parte. Composta pelo velho colaborador de Leone, o gênio Ennio Morricone, é de uma beleza inenarrável, capaz de emocionar até a mais estóica das criaturas. No filme, funciona quase como um personagem, dando ao que se vê na tela os tons exatos de tristeza, frustração, poesia e até humor. Considero a melhor trilha sonora já feita, disparado.
Originalmente com quase quatro horas de duração, foi reeditado e encurtado para duas horas e meia – à revelia de Leone – para a estreia nos Estados Unidos. Nunca vi a versão mutilada e nem quero ver, mas dizem que um crítico assistiu à ela em 1984 e chamou o filme de “o pior do ano”; anos depois, o mesmo crítico viu a de 3h59 e considerou a obra uma das melhores dos anos 80. Essa versão que estreou agora com 4h15 é a que mais se aproxima da idealizada por Leone, que chegou a filmar quase dez horas de material. Mais uma vez: alô, distribuidoras, vão lançar isso aqui não?
trailer:
trilha:
por Alex Menotti, jornalista e blogueiro do Rama Lama Fa Fa Fa e da Play TV
OS CAÇADORES DO PLÁGIO PERDIDO
O plágio (ou “citação”, ou “homenagem”, ou “inspiração”) é prática corrente na música. Dos mais descarados, acho um feito pelo Led Zeppelin. Em 1967, Jake Holmes, um músico estadunidense de folk psicodélico havia acabado de lançar seu primeiro álbum, The Above Ground Sound Of Jake Holmes. O disco é uma dessas gemas perdidas e jamais ganhou reedição masterizada em formato digital – parece que as fitas masters desapareceram e existe uma versão em CD copiada diretamente do vinil. No ano seguinte, ele abriu um show dos Yardbirds em Nova York. O grupo já contava com Jimmy Page na guitarra e caminhava para se tornar o Led Zeppelin. Holmes tocou uma de suas composições, presente naquele seu disco de estreia. Page adorou o que ouviu e, na maior cara-de-pau, surrupiou a música e a registrou como sua no primeiro disco do Zep, de 69. O título desse som do Jake Holmes? “Dazed and Confused”. O cara nunca recebeu direitos autorais do Led Zeppelin, que apenas alterou alguns trechos da letra e nem se deu ao trabalho de mudar o título.
Page, por sinal, é uma espécie de cleptomaníaco do rock. São notórios outros casos em que o Led Zeppelin se apropriou de canções alheias. “Bring It On Home”, do segundo disco deles, foi chupada de uma canção do mesmo nome, escrita pelo Willie Dixon. “The Lemon Song”, do mesmo álbum, é “Killing Floor”, do Howlin’ Wolf. Dixon foi novamente atacado e viu a letra da sua “You Need Love” se transformar em “Whole Lotta Love”. Como é divertido caçar referências – ou desmascarar as pessoas, hehehe – fiz uma listinha bacana de “plágios” (ou “homenagens”). Aí vai:
* Beautiful Stranger – Madonna/She Comes In Colors – Love (original): Madonna e o co-autor da canção, William Orbit, roubaram descaradamente vários trechos do clássico de 1966 do Love.
* Holidays In The Sun – Sex Pistols/In The City – The Jam (original): A música dos Pistols foi lançada alguns meses apenas depois de “In The City”. Paul Weller, líder e vocalista do The Jam, costumava brincar na época durante os shows e dizia que a banda ia tocar “o novo single dos Sex Pistols” antes de começar “In The City”.
* Hello, I Love You – The Doors/All Day And All Of The Night – The Kinks (original): Os próprios membros do Doors admitiram que copiaram a música do Kinks.
* London Calling – The Clash/Dead End Street – The Kinks (original): Outra do Kinks e outra que a banda “plagiadora” admitiu ter se inspirado na original.
* My Sweet Lord – George Harrison/He’s So Fine – Chiffons (original): Harrison foi até processado e perdeu a causa.
* Fight Test – Flaming Lips/Father And Son – Cat Stevens (original): Os artistas entraram num acordo e Cat Stevens recebe atualmente 75% dos royalties de “Fight Test”. O líder do Flaming Lips, Wayne Coyne, se desculpou, afirmando que é fã do Cat Stevens e, com bom humor, ainda disse que ele “não vai ganhar muito dinheiro da gente mesmo”.
* Connection – Elastica/Three Girl Rhumba – Wire (original): Não contente, o Elastica ainda copiou em “Line Up”, do mesmo disco, outra música do Wire, “I Am The Fly”, e uma do Stranglers, “No More Heroes”, em “Waking Up”.
* Come As You Are – Nirvana/Eighties – The Killing Joke (original): O grupo começou a processar o Nirvana, mas deixou de lado após a morte do Kurt Cobain.
* Ando Meio Desligado – Mutantes/Time Of The Season – The Zombies (original): A linha de baixo – e os próprios Mutantes confessaram isso – é chupinhada da obra-prima dos Zombies.
* S.O.S. – Raul Seixas/Mr. Spaceman – The Byrds (original): Ouça ambas e diga se o Raul praticamente não fez uma versão em português, só que assinou como sendo dele.
* Que País é Esse – Legião Urbana/I Don’t Care & We Want The Airwaves – Ramones (originais): Renato Russo pegou elementos das duas canções dos Ramones pra fazer “Que País é Esse”.
* E tem o Camisa de Vênus. Algumas o Marcelo Nova admitiu ter se inspirado. Outras, parecem plágios mesmo. Ouça “Só O Fim” e “Gimme Shelter”, dos Rolling Stones; “Passatempo” e “That’s Entertainment”, do The Jam; “O Adventista” e “I Believe”, dos Buzzcocks. Ah, Marcelo Nova. O nosso Jimmy Page.
por Alex Menotti, jornalista e blogueiro do Rama Lama Fa Fa Fa e da Play TV
ZIGGY POP
Neste dia 6 de junho, o lançamento do disco The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars (ou, simplesmente, “Ziggy Stardust”), do David Bowie, completa 40 anos.
O álbum conceitual conta a história de um alienígena que vira um astro do rock na Terra e quer passar uma mensagem de esperança aos humanos. Só que ele acaba sucumbindo aos excessos – sexo, drogas etc – da vida de rock star.
O disco é tido hoje em dia como um dos melhores trabalhos do Bowie e um dos grandes discos de rock de todos os tempos. Separei algumas curiosidades sobre ele. Vamos lá:
- Foram várias as inspirações do Bowie para criar o Ziggy Stardust. Uma das principais foi um roqueiro inglês chamado Vince Taylor. Ele é o compositor da música “Brand New Cadillac”, que o Clash imortalizou no disco London Calling. Taylor fez sucesso nos anos 50/60 e chegou até a abrir um show dos Rolling Stones em Paris, em 1964. Mas ele acabou tendo problemas mentais devido ao abuso das drogas. Bowie conheceu Taylor após um dos seus “surtos”, em que ele passou a acreditar que era um cruzamento entre um deus e um alien. Foi a partir desse encontro que Bowie idealizou o Ziggy Stardust. Taylor acabou caindo no ostracismo e morreu no esquecimento em 1991, vítima do câncer.
- O próprio Bowie também conta outra inspiração “curiosa” para o Ziggy Stardust. Ele diz que o nome veio de uma alfaiataria chamada “Ziggy”, pela qual ele passou na frente uma vez. Bowie gostou do nome, pois ele rimava com Iggy (de Iggy Pop). E como, segundo Bowie, aquela coisa toda do disco tinha a ver com roupas, seria uma piada interna dar o nome de Ziggy para o personagem e para o disco.
- Por falar em piadas, Bowie também gostava de brincar em entrevistas sobre a escolha do nome Ziggy. Numa delas, para a revista Rolling Stone, ele disse que escolheu esse nome por que é “um dos poucos nomes cristãos que começam com a letra ‘z’”.
- Já o “Stardust” vem de outra fonte, igualmente curiosa. Quando o Bowie era contratado do selo Mercury, no final dos anos 60, também havia lá um cantor country chamado Norman Carl Odom, que usava o nome artístico The Legendary Stardust Cowboy. Esquisitão e excêntrico demais para a época – o cara lançou músicas com títulos como “I Took A Trip On A Gemini Spacecraft” e foi uma espécie de precursor do psychobilly – até chegou a fazer um certo sucesso e se apresentou num programa da TV nos Estados Unidos. Só que a platéia achou que aquilo tudo não passava de uma piada e o cara ficou arrasado. Dizem que atualmente ele trabalha como segurança. Bowie regravou “I Took A Trip On A Gemini Spacecraft” no album Heathen, de 2002. Odam retribuiu a gentileza e regravou “Space Oddity”.
- Bowie também revelou, certa vez, outro fato “bizarro” que o levou a criar o personagem Ziggy Stardust. No começo dos anos 1970, Bowie foi ver pela primeira vez um show do Velvet Underground. No final, ele foi ao camarim e bateu um longo papo com a banda. Dias depois, comentou com um amigo, empolgado, que tinha conversado bastante com o Lou Reed. O amigo contou que Lou Reed tinha deixado o Velvet no ano anterior e que aquele era o substituto dele, Doug Yule, quase uma cópia do original. O que Bowie achou mais estranho é que o cara conversou com ele como se FOSSE o Lou Reed. Segundo Bowie, foi essa “linha fina” entre o que é real e o que é falso que serviu como uma das inspirações para o Ziggy Stardust.
- Bowie continuou encarnando Ziggy Stardust – ou uma variação dele – no seu álbum seguinte, Alladin Sane, de 1973. Na verdade, ele criou um novo personagem, o Alladin Sane, que é um trocadilho com “A lad insane”, algo como “um cara insano”, que o Bowie definiu como “Ziggy vai para a América”. O disco foi lançado em abril de 1973 e foi durante a turnê dele que o Bowie “aposentou” o Ziggy Stardust. Tudo aconteceu no dia 3 de julho daquele ano, no último show da turnê pela Inglaterra, que foi filmado pelo D.A. Pennebaker, o mesmo que dirigiu o documentário sobre o Dylan, Don’t Look Back. Antes da última música, “Rock’n’Roll Suicide”, Bowie disse que aquele não era apenas o último show da turnê, mas o último que fariam para sempre. A frase confundiu a platéia e a imprensa, que acharam que o Bowie estava se despedindo dos palcos, quando, na verdade, ele estava apenas se despedindo do Ziggy Stardust.
por Alex Menotti, jornalista e blogueiro do Rama Lama Fa Fa Fa e da Play TV
NAÇÃO ZUMBI
A história do rock está repleta de gente que é, digamos, azarada. O Zombies tá nesse clube. Quando a banda britânica lançou seu terceiro disco, Odessey and Oracle – a palavra “odessey” saiu grafada assim na capa, sabe-se lá o motivo -, em 1968, era o momento de eles estourarem e se tornarem daqueles grupos conhecidos por todo mundo.
O álbum é uma pequena obra-prima, considerado a resposta britânica ao Pet Sounds, dos Beach Boys. Só que o grupo, por conta de brigas internas, acabou ANTES de o disco chegar às lojas. Odessey… foi praticamente ignorado num primeiro momento e só no ano seguinte uma das faixas, “Time of the Season” – a famigerada canção que os Mutantes usaram como base para “Ando Meio Desligado” -, começou a fazer sucesso.
O disco, com 12 faixas, abre e fecha com duas preciosidades, respectivamente “Care of Cell” – cuja letra trata de um tema inesperado: a carta a uma namorada que está passando um tempo na cadeia –, e a já citada “Time of The Season”. Entre elas, a dupla de compositores Rod Argent e Chris White mostra seu poder de fogo, em composições repletas de melodias poderosas, complexas, com elementos de pop, psicodelia, estrutura de jazz, arrepiantes. As guitarras são sutis e as canções privilegiam arranjos de cordas, pianos e vocalizações de outro mundo. Coisas como “Beechwood Park”, “Hung Up On A Dream” e “Friends Of Mine” são de levar às lagrimas.
Hoje em dia, o álbum é considerado antológico, um dos melhores feitos nos anos 60. Mas é de imaginar até onde a banda teria chegado se tivesse continuado na ativa. Anos depois, foi lançada uma edição em CD, com capinha de papel e tudo, que traz nada menos do que 18 faixas-bônus para tornar o petisco ainda mais saboroso. Sabe aquela história de quais discos você levaria para uma ilha deserta e blablablá? Este seria um deles.
por Alex Menotti, jornalista e blogueiro do Rama Lama Fa Fa Fa e da Play TV
TRANSA UM TRANSA?
Sem choro nem vela. Podem falar que o Caetano Veloso é isso, que é aquilo, mas que o cara tem diversos trabalhos geniais no seu currículo é indiscutível. E um deles – talvez o mais – ganhou recentemente uma reedição luxuosa. Para comemorar seus 40 anos – e também como parte das comemorações de 70 anos do próprio Caê, que se completarão em agosto de 2012 – o disco Transa acabou de ser relançado em grande estilo.
O álbum foi gravado em 1971, em Londres, no período de exílio de Caetano. Para registrar o trabalho, ele chamou alguns comparsas e montou uma banda enxuta, com Jards Macalé na guitarra e no violão; Moacyr Albuquerque no baixo; e Áureo de Souza na percussão e bateria – Tutti Moreno tocou bateria apenas na faixa “Nine Out Of Ten”.
A partir da recuperação dessas fitas masters originais, o disco foi remasterizado no estúdio Abbey Road (que dispensa apresentações) e chega novamente às lojas agora em 2012 em vinil e CD. Pra completar o barato total, as edições trazem o projeto gráfico original, o tal “disco-objeto”, concebido pelo amigo e diretor de cinema/teatro Álvaro Guimarães. O design permite que uma capa tripla seja aberta e “montada”. Obviamente foi adaptado para o formato CD, mas em vinil é o mesmo do LP original de 1972.
A nova edição de Transa permite apreciar maravilhas do repertório “caetânico” em toda sua glória. Trabalho híbrido português/inglês, apresentou um artista perfeitamente ligado ao que de mais moderno se fazia em termos de música na época. Ao samba, Caetano incorporou blues, rock e, pioneiro, reggae – na faixa “Nine Out Of Ten”, que usa elementos do estilo jamaicano pela primeira vez por um artista brasileiro.
Transa abre com o que eu considero uma das melhores canções dele, “You Don’t Know Me”. Sobre um instrumental bluesy, Caetano canta em inglês o que parece ser um recado aos brucutus da Ditadura (“You don’t know me/Bet you’ll never get to know me/You don’t know me at all/Feel so lonely”), cita o clássico “Reza”, de Edu Lobo, coloca Gal Costa para cantar – em participação incidental – “Saudosismo” e homenageia o Gonzagão. Tudo isso numa única faixa.
Ao caos organizado de “Triste Bahia” – um poema do barroco Gregório de Mattos transformado em batuque de terreiro – segue-se outra obra-prima do álbum, “It’s a Long Way”. Sobre uma batida de bossa nova, Caetano cita explicitamente os Beatles – tanto verbalmente quanto nas aliterações da letra – e insere trechos de “Consolação”, do Baden Powell. De novo, tudo isso numa única faixa.
Na sequência, aparece outro momento brilhante do disco, a releitura do samba “Mora na Filosofia”, do gênio Monsueto Menezes. Seguindo a temática central da letra – traição, desilusão e dor – a canção começa lenta e triste. Quando entra a bateria de Áureo de Souza, ela envereda pelo terreno jazzístico até chegar à catarse do seu terço final, como se o personagem-narrador entrasse em êxtase por ter perdido (se livrado de?) uma mulher infiel.
Gal ainda volta nas duas faixas finais do disco, a experimental “Neolithic Man” e o rock “Nostalgia”. Nesta última, ela imita uma gaita com a boca – no final da música aparece uma gaita real, tocada, olha só, pela Ângela Ro-Ro. Não à toa, Transa é o disco mais cultuado de Caetano. Trabalho essencial que redime o filho da Dona Canô de qualquer possível chatice que ele grave-digue-faça nos últimos anos.
por Alex Menotti, jornalista e blogueiro do Rama Lama Fa Fa Fa e da Play TV
LE POP
Iggy Pop, o mito, vai lançar disco novo dia nove de maio. Só que, desta vez, ele resolveu atacar de intérprete. O álbum, cujo título é Après, trará apenas covers de canções que, segundo o próprio Iggy, o inspiraram de alguma maneira. E, seguindo o momento “francófilo” dele, das dez faixas do álbum, cinco são francesas – e uma, a versão de “Michelle”, dos Beatles, tem boa parte da letra na língua do de Gaulle. Iggy vem flertando com a cultura francesa desde seu trabalho anterior de 2009, Préliminaires, inspirado num livro do escritor Michel Houellebecq e que já trazia algumas faixas em francês, caso de “Les Feuilles Mortes”, versão para “Autumm Leaves”. Ele também chegou a gravar uma cover de “Initials BB” ao lado do filho do Serge Gainsbourg, Lulu, para o disco From Gainsbourg To Lulu, de 2011.
Em Après, ele regrava mais uma do Serge, a monumental “La Javanaise”, e temas de Henri Salvador (“Syracuse”), Edith Piaf (a clássica “La Vie Em Rose”) e do americano-que-virou-francês Joe Dassin (“Et Si Tu N’Existais Pas”), entre
outras. Na metade em inglês do álbum, Iggy visita, além da já citada “Michelle”, o repertório de gente como Yoko Ono (“I’m Going Away Smiling”), Frank Sinatra (“Only The Lonely”), Cole Porter (“What Is This Thing Called Love?”) e Harry
Nilsson (“Everybody’s Talkin’”, da trilha do filme Perdidos Na Noite).
Só consegui ouvir alguns trechos de “La Javanaise” e de “La Vie Em Rose” na voz dele, mas o disco promete. O repertório, ao menos, é impecável. Iggy vem sendo bastante criticado desde o álbum Préliminaires. Dizem que ele
se acomodou, muitos fãs radicais torcem o nariz para sua aproximação com o jazz e tal. Eu discordo. Ora, não dá para um cara de 65 anos ainda ficar na mesmice do rockão com guitarras estridentes ou tentar recriar o que os
Stooges fizeram no passado – aliás, nos últimos trabalhos em que ele foi por esse caminho, os resultados foram pífios.
Por sinal, não é de hoje que Iggy busca outras possibilidades na música. Sua obra-prima, o disco The Idiot, de 1977, foi definido por ele como uma mistura de James Brown e Kraftwerk. Eu, particularmente, gosto desse Iggy Pop inusitado. Acho o criticado Préliminaires um bom disco. Existe coisa mais punk rock do que o avô dos punks regravar Tom Jobim? Pois foi o que ele fez naquele disco com “How Insensative”. E o álbum traz uma das melhores composições dele em anos, a malandra “King Of The Dogs”, que não faria nada feio no repertório do Tom Waits.
Voltando ao Après, posso estar chutando, mas imagino que deva receber o mesmo tipo de crítica. Vão dizer que Iggy está preguiçoso, que não consegue mais compor algo que preste e que foi buscar o conforto de standarts alheios.
Bom, se até um gênio inconteste da nossa música, o Chico Buarque, já lançou um disco de intérprete – O Sinal Fechado, de 1974 – o Iggy não pode? Claro que existe a possibilidade de eu quebrar a cara, mas, pôxa, o cara regravou “La Javanaise”, do Gainsbourg. Se for só isso de bom no disco, já vou amá-lo pelo tempo de uma canção.
por Alex Menotti, jornalista e blogueiro do Rama Lama Fa Fa Fa














