Consultório Sentimental, por Fellipe Fernandes

foto: fellipe fernandes instagram: @fellfernandes

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A vida é mesmo um balaio de ilusões. Ali, pelos furos, vamos abandonando aquelas que sobram, que incomodam como unhas encravadas ou areia nos olhos de quem enxerga adiante e só vê mar, onda, água, um horizonte que jamais se alcança, que nunca atravessa o desespero de ser quem somos quando ninguém está ao nosso lado, segurando mãos.

Olho os pés do bailarino e me sinto parte da dança, um mundo que gira pelos calcanhares com desejos de asas. As tatuagens no corpo delimitam a linha do tempo e as senhoras no parque, tão alheias aos relógios, alimentam pombos, crianças, o sonho do próximo minuto. Os jovens, se sonham, o fazem com paixão pelo absurdo.

Nas obras que os artistas abandonam pelo mundo sempre resta um pouco de alma. Do artista, nada sobra, além das marcas da agonia que é parir a arte. Tinta, texto, palavras costuradas e beijadas lentamente, golpes de cinzel, a queda do contemporâneo, tudo faz parte da beleza que é termos o corpo aberto para o anseio de sermos quem quisermos.

Os dias estão mais lindos desde segunda-feira, porque há neles pele que respira, há cabeça que transforma em suor, gozo, saliva, tudo o que nos traz o fluxo de nossa consciência. É nele que parte de mim renasce cada dia como brotos de uma planta rara ou dentes na boca de uma criança, sempre disposta a comer mundo como se estivesse diante de uma torta de chocolate branco.

A resiliência do futuro é algo digno de estudo.
Mas é o passado quem nos dá força.
Ainda sinto seu cheiro subindo dos pelos de meu peito.

A vida é mesmo uma fogueira de delírios. Ali, entre as lenhas, nos consumimos, mas seguimos iluminando, clareando o caminho à frente, como um farol que salva o penhasco da vontade de ser mar, onda, água, instabilidade.

Sejamos firmes.
Sempre.

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Fellipe Fernandes é um escritor que gosta de tonar ficção a própria vida. A partir de hoje, está de volta como colaborador deste blog  na coluna “Consultório Sentimental”. Também escreve no blog Memórias de um Jovem Senhor.