As cores da vida, por Fellipe Fernandes

Instagram @fellfernandes

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Mais profunda que a queda é a própria subida. No topo, o que se sente é fantasia, um extrato irreal de nossa suficiência, longe da verdade que bebe café em copos de requeijão e se deita no estrado de nossa cama já abaulada pelo peso que nossa união foi ganhando à medida em que você se desesperava, buscando ladeiras, colinas, escadas.

Nosso amor se afogando num balde de água suja a poucos segundos de ser derramado morro abaixo, atingindo os pés dos novos caprichos de respiração sossegada, corações de quitanda, em lugares onde você se deixa estar nu, mais que uma previsão de fogo, nos braços de jogadores de bilhar recendendo a cerveja e frango frito, que falam alto e lhe provocam – e eu não mais aviso.

A ira também é azul, meu rapaz, naquilo que mosquitos, os seus, cumprindo desejos tem por corpo.

Nada mais que asas e vozes de insetos falantes, voadores: violência que circula e enquadra. A essência que me rouba em sua queda, a paleta de cores em sua mão, não me faz falta, mas me realça com marca mais onipresente que a de Hawthorne – e você sabe que eu jamais serei como Prynne, o seu Prynne ou de quem quer que seja.

Você talvez não saiba do que falo e me falta tempo para lhe explicar. Não sei falar a língua dos seus mosquitos, não sei ler os sinais que me manda e não quero entender o que me dizem entre um machucado e outro, porque apenas sei sentir.

E dói.

Tenho todas as doenças que sua picada transmite, os seus vírus me tomam conta e já não vivo para melhorar. Porque meu coração está inchado e as veias secas. Falta-me também a vergonha, pois sua fome me destrói, enquanto me sirvo.

A verdade do amor também é vermelha na raiva de existir. Por isso, quando morrer, me roa os ossos.

E, por favor, me faça feliz.

***

Fellipe Fernandes é um escritor que gosta de tornar ficção a própria vida. Colabora com este blog  na coluna “Consultório Sentimental” e escreve no blog Memórias de um Jovem Senhor.